sexta-feira, 4 de julho de 2008

O Pesadelo

Penumbra torpe arraigada no vil pensamento!
Sentimento de dor e Morte, no corpo, indolor.
Cujo espectro viajante de beijo frio e sem sabor,
Carrega a carne para o covil do amargamento...

Chamas negras chovem dos olhos desmanchados,
Onde se instalaram as cavernas dum mal perene,
E tanto de maldição se cultiva, no solo indene,
Que tanto nascem cruzes e terços, quanto machados...

Plantações são regadas, a fio, com sangue humano...
Pudores plantados em terreno gélido abrigam, em vão,
Coração dilacerado, Mente dispersa, sorriso profano...

Abrigam, numa pequena caixa, sem um fundo...
O pesadelo que torna o homem sua imperfeição...
Aquele pesadelo, as quais chamaram de mundo...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Sou

Sou poesia, mas nela não me faço ser,
sou tolo, sou amante, sou amigo, sou...
sou aquilo que no sangue quente suou...
sou tudo e nada, sou desgosto e sou prazer!

Sou um arrebol fervoroso e a chuva fria,
Sou criação e sou também um criador,
Sou mestre e sou um vil desbravador,
Sou uma tal tristeza que se enche de alegria.

Sou a torre norte e as infinitas constelações,
Sou gêmeo de mim e amante da morte,
Sou o guerreiro escarlate das íntimas canções,

Sou fraco que de fraquezas mil se torna forte,
Sou alado, sou anil, sou as eternas divagações,
Sou tudo e tudo nada nos castelos da sorte.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Encantamento!

Não bastassem os dias incomuns
as noites frias de verão à assolar,
os pássaros únicos a cantarolar,
e a dança caótica no mar dos atuns.

Não bastassem as rosas vermelhas,

o fulgor único do terreno cinza-vil,
o céu com seu brilhante azul anil,
e as flores completadas por abelhas.

Não bastassem estas situações,

estes contrastes que nos foi dado,
o mundo continuaria sendo alado,

sob forte chuva ou até mesmo trovões,

ou ainda que outras fossem as tradições,
tudo continuaria sendo encantado.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

SoulFly

Sol em terra ardente, afogado em mar anil,
nasça, nasça voltando olhos ígneos a mim,
dá-me latente ardor em tecido de sutil cetim,
para deitar-me pálido sob o esquecido abril.

Quisera vós fazer de mim seu pecador,
sua alma andante, seu medo, sua crueldade,
obstruindo esta alma pueril em insanidade,
para sentir em minha pele seca seu calor.

Mas, hei de surgir negro sob a luz da lua virginal,
e tirar-me-ei de seus olhos bramidos a morrer,
esperando a lua amante única de meu amor banal,

Que consumir-me-á sentindo seu ego puro corroer,
pois consumirá alguém que deu se lhe corpo venal,
e na prematura morte a lua do amor vil irá beber.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Perdição

Andante oculto em afãs fenecidos,
Donde os pés envoltos em mar,
Saboreavam o mareado andar,
dos passos que iam esquecidos.

Se de feras o sol ofusca sumido,
Um lume encalda o algido temor,
que se de perda a vida carece a dor,
então de dor o mundo se tem perdido.

Perdido se-lhe-á aquele suspiro ardil,
o vulto que lhe cobre a maculada mente,
proprio do terror que lhe semeia o vil,

quando está sob o pesar do que sente,
vai-se além do seu pecado cruel, pueril,
encontrar-se perdido na solidão ardente.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Desencontro

Com que rispidez a vi olhar-me...

- Se sente bem? 
(perguntei-lhe, para não demonstrar minha lamúria por aquela visão).

- Não poderia estar melhor.
(respondeu-me ela, direcionando seus castanhos olhos e fitando os meus como se os fosse engolir).

Pensei, então por alguns milésimos de segundo, como poderia ela ser tão forte ao ponto sorrir. Então ela antecipou-me.

- Nós somos espelhos. Eu vejo em ti minha alma e você em mim sua perdição.

Aquilo soou a ele como um epitáfio. Mas ela continuava a sorrir... Os lábios tão docemente abertos, deixavam à mostra um sorriso que variava de melancolia a uma felicidade (ao ponto que não se podia mediar nem um nem outro)...

- De que adiantaria travar lutas? nem mesmo sei pelo que devemos lutar.... 

Com isso ela ia saindo...

- Sorria sempre, disse ele, mas sorria com o furor da alma... para que vosso sorriso seja o motivo dos sorrisos alheios, não de vosso desespero.

E ambos saíram... Ela em busca de seu sorriso sincero, e ele a procura de prazer. Nunca mais se viram... depois daquele primeiro-último anormal encontro na rua esperança, sem número.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Anjos

Somos anjos de uma asa só, e só conseguimos 
Voar quando nos abraçamos com outro anjo.
Sentindo da brisa o amor que nos dá esbanjo;
E do calor todo infinito que então sentimos.

Somos anjos de uma asa só, e só conseguimos 
Voar quando nos abraçamos com outro anjo.
Qual espelha sua alma em sublime arranjo,
De céu em cores mil e em mil sóis em arrimos.

Somos anjos de uma asa só, e só conseguimos 
Voar quando nos abraçamos com outro anjo.
E sentindo o vento nórdico nos encontrar.

Fazendo-nos juntar, e quando assim abrimos,
Os olhos à imensidão, ao som d’um banjo,
Que tocado por Eros, emite o som do amar.