domingo, 8 de julho de 2012

Ontem

Ontem andava cabisbaixo pela rua,
e reconhecia as cicatrizes que caiam.
Cicatrizes, reflexos, retalhos, áscua...
As portas do passado se ascendiam.

Ontem emudeci o universo meu,
desfiz da minha criatura, meu ser.
Andei sob o sol e o céu reconheceu
a mágoa, mas não me quis tecer.

Ontem a chuva a mim representava,
e molhava a terra com minha ilusão.
Ontem o espelho da alma ecoava
meu âmago de tortura e perdição.
Ontem o hoje sequer importava,
Ontem o hoje não tinha expressão.

Restos de ontem me encontraram,
e me deixaram aos pedaços, enfim.
Ontem fui anequim. Ontem me arrastaram.
Ontem me deixaram. Ontem serei caim!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Contrastes

Deu-lha o teu castelo de gelo,
e ela o recebeu, sem calor.
Dois cubos de dor, um em cada peito...

Olharam-se. Viram-se. Apaixonaram-se,
o frio da noite caiu e eles sentiram,
Apressaram-se, mas ninguém se permitiu.

Não houve calor em nenhuma nau,
e elas se foram com a onda fria.
Espia, Espia... não é amor, não é, não é.

Dois cubos de gelo em peito gélido,
Duas almas frias na mesma mão.
Pensamento cálido, e medo, e passado!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Escuridão

Rondas meus pensamentos,
            tristezas tolas e vãs.
Assola a alma impiedosa,
Assola os cantos da natureza.

Andas, solicita e caridosa,
       pelos becos imundos.
Beija à boca já ofegante,
dá o braço com maestria.

Sempre presente, dia ou noite;
     Busca o que tem, o que dá.
Ai de mim em teus braços deitar.
Não hei levantar, não hei, não hei.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Única verdade

Sob teu regaço,
minha aura se lança...
e vingo-me da vingança
perdendo o teu compasso.

Temo a lembrança
que me cai dos braços,
quando da bonança
não restam os laços.

Vago no céu teu de perdido,
enquanto (...) soa a trombeta,
e não basta a vontade

de querer estar esquecido
quando de tua pura faceta
sou a única verdade.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Rex Tremendae

Lança em mim um sopro em vão,
que a costurar o céu cerca a terra
e vê-se no fulgor o que se encerra!
e no que finda o que se faz criação.
A trama retoma o novo ciclo, então.
Libélulas voam ao acerto que erra,
onde era tudo certo e nada abismal
um sofisma do mundo que se alitera
que correm as pernas e foge a fera
pronto o cais para a solitária nau.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A névoa

Paira sobre mim a maldição,
um êxtase de dor e alegria;
Uma reencarnação tardia,
eriçada da mais negra escuridão.

Uma névoa metálica se ergueu!
(num fervor, num canto voraz)
De toda raiz pútrida e contumaz,
nasceu a paz que já não nasceu.

As trevas se colidiram com a dor;
Uma maré de agitação se abriu,
como a um sorriso torpe, incolor!

O que não se via, jamais se viu!
Pois da névoa brotou o amor:
Amor às trevas a que tudo cobriu.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O Pesadelo

Penumbra torpe arraigada no vil pensamento!
Sentimento de dor e Morte, no corpo, indolor.
Cujo espectro viajante de beijo frio e sem sabor,
Carrega a carne para o covil do amargamento...

Chamas negras chovem dos olhos desmanchados,
Onde se instalaram as cavernas dum mal perene,
E tanto de maldição se cultiva, no solo indene,
Que tanto nascem cruzes e terços, quanto machados...

Plantações são regadas, a fio, com sangue humano...
Pudores plantados em terreno gélido abrigam, em vão,
Coração dilacerado, Mente dispersa, sorriso profano...

Abrigam, numa pequena caixa, sem um fundo...
O pesadelo que torna o homem sua imperfeição...
Aquele pesadelo, as quais chamaram de mundo...